Posto isto, e porque, mais do que nunca, é importante dar a conhecer, ao mundo, este incrível país, partilho, convosco, a experiência única que é voar numa companhia aérea birmanesa, neste caso em concreto, a Golden Myanmar Airlines.
A nossa experiência no Inle Lake, estava a ser absolutamente inacreditável, quando nos apercebemos que tinha chegado o momento de seguir viagem até Hpa-an, para descobrirmos os encantos do sul do país. Uma vez que ir de autocarro estava totalmente fora de questão, além das estradas perigosas, demoraríamos mais de 24 horas, optámos por voar do lago até Yangon, e, daí, seguir de bus, numa viagem que, em teoria, não deveria demorar mais do que sete horas.
Apesar de os bilhetes de avião não serem super baratos, cerca de cinquenta euros por pessoa, decidimos avançar, e, às oito em ponto, chegámos ao aeroporto. Confesso que, apesar da má fama de algumas companhias birmanesas, e de termos ouvido histórias um tanto assustadoras, nomeadamente a contada, em Mandalay, pelo espanhol Manuel, como narrei neste post, estávamos tranquilos e confiantes. 


O aeroporto que faz a ligação com o Inle Lake chama-se Heho, e não é mais do que um hangar doméstico com uns bancos corridos no interior e muito pouco confortável. O controle de segurança, efetuado por um funcionário que mal olhou para nós, é, também ele, inacreditável, já que não verificaram nada do que levávamos. “Espetacular”, pensei. “Pena não termos trazido a bomba atómica e as espadas de Samurai”. Ainda mal nos tínhamos sentado, já a luz do aeroporto se tinha desligado, e, foi, então, que a ficha caiu: “Se calhar, não foi boa ideia termos optado pelo avião”, comentei. Mas era tarde e já nada havia a fazer.
Ao nosso lado, felizes e contentes, um grupo de seniores alemães, cantava e ria, como se não fosse nada com eles. Aquela atitude, fascinou-me e comecei a reparar nos pormenores. Com uma média de idades de, seguramente, oitenta anos, deviam ser cerca de quinze e estavam acompanhados por vários guias e assistentes. A maior parte tinha dificuldade em deslocar-se e, dois ou três, usavam uma espécie de andarilho. “Que bosses. Mal se conseguem mexer, mas vieram viajar para a Birmânia. Vamos ser nós quando chegarmos a velhos, está decidido!!”, comentei com o meu marido. “Só nos falta arranjar um grupo de amigos com este espírito, e não demasiado xexés”.




Após mais quatro falhas de energia, e duas horas de atraso, o nosso avião lá chegou, e estávamos prontos a embarcar. Mais uma vez, desobedeci aos conselhos do meu pai, que sempre me disse: ” Filha, nunca viajes em nada com os hélices de fora”. “Se não tinha caído com o espanhol, também não ia cair connosco”, e lá fomos.
Escusado será dizer que o sistema de transporte das malas suscitou muitas dúvidas e tive algum receio que nos colocassem droga nas mochilas, ou que as mesmas nunca chegassem a Yangon. Mas, viajar no Myanmar, para além de uma experiência única, é, também, um ato de fé, pelo que não tivemos outro remédio que não acreditar.
A registar, à semelhança do que havíamos experienciado no autocarro, como narrei neste post, o serviço de bordo incrível, com assistentes maravilhosas, e comida deliciosa, de fazer chorar os trens de aterragem da TAP.
Foi num misto de tristeza, por abandonarmos o Lago, e expectativa, por continuarmos a descobrir o inacreditável Myanmar, que levantámos voo para Yangon, na esperança de encontrarmos um autocarro aleatório que nos levasse até Hpa-an. A nosso missão era, agora, descobrir os encantos do sul do país e da cidade que inspirou o famoso escritor britânico George Orwell nos seus “Burmese Days”: Moulmein. (Não fujam: To be continued).




Crónicas do Myanmar: Uma aula de culinária birmanesa no Inle Lake
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]]>Após uma árdua pesquisa no Tripadvisor, concluí que a melhor opção seria escolhermos a Bamboo Delight Cooking School em Nyaung Shwe, no Inle LaKe. De facto, e como referi na ultima crónica, a visita ao lago estava a ser incrível e super intensa, e, nada melhor para terminar em grande, do que uma boa refeição de comida birmanesa, confecionada por nós próprios. A aula estava marcada para as seis da tarde, e deveria ter uma duração de três horas. Chegámos mesmo em cima do tempo, sob uma chuva torrencial. “Eu devia estar louco quando concordei com esta ideia. Aliás, nem me lembro de termos falado sobre isto”, dizia-me o Luis, meio aborrecido porque detesta cozinhar. “Não estavas louco mas estavas a ver Netflix. Lembro-me perfeitamente de teres anuído com um gesto”, repliquei.
À porta do restaurante, já Leslie, o proprietário, esperava por nós com um aceno e um sorriso rasgado. Estávamos no inicio de Novembro, no final da época baixa, pelo que não haviam muitos turistas, e seriamos só nós e um casal alemão, mega simpático, o Mathias e a Hanna, a participar na sessão. 



Para começar, cada um tinha que escolher, dentro das opções disponíveis, quais as receitas que preferia aprender. Assim, o meu amor cozinhou caril de camarão e salada de papaia verde, eu fiz frango com erva príncipe e leite de coco, assim como a clássica salada de chá verde, cuja receita já partilhei aqui e os nossos colegas prepararam salada de flor de bananeira, caril de abóbora, dumplings de arroz de cebola e erva príncipe, e tofu de grão. Tudo absolutamente delicioso.
No decorrer da aula, descobrimos que o nosso anfitrião tinha estudado, até à idade adulta, num mosteiro, onde aprendeu as artes da cozinha. A sua paixão pela culinária, tinha-o levado a inaugurar, em 2013, conjuntamente com a esposa, Sue, o restaurante-escola, tendo recebido, desde então, turistas do mundo inteiro. Com um forte cariz comunitário, 15% dos ganhos eram investidos na educação das crianças locais, os estrangeiros eram convidados a fazer voluntariado, dando aulas de inglês nas escolas do lago. “A isto se chama verdadeiro turismo sustentável”, pensei, feliz, com a escolha.




Outro aspeto super interessante, foi a verdadeira lição sobre cozinha sustentável, na ótica da utilização dos produtos locais e do correto uso de especiarias, e da própria história, e origem, dos ingredientes. Aprendi ensinamentos preciosos que vou, ao longo das próximas semanas, partilhar, convosco, aqui no blog.
Fiquei, genuinamente, com pena por não conseguir, em casa, cozinhar num fogão a carvão ou em frigideiras de metal com a qualidade das que o Leslie tinha, porque fazem muita diferença no sabor dos alimentos. No final, ofereceu-nos sementes de manjericão asiático, mais roxo e aromatizado que o nosso, e deu-nos dicas incríveis sobre como comprar determinados produtos no mercado, e qual o justo preço a pagar pelos mesmos. A aula foi tão enriquecedora que, às tantas, até o meu Amor, estava, genuinamente, a divertir-se.
As três horas passaram a voar, e em menos de nada, tivemos que voltar ao alojamento para arrumar as malas, já que, no dia seguinte, voaríamos de volta para a capital, Yangon, e, daí, para sul. A viagem ainda não ia a meio e eu já não me queria ir embora. O Myanmar estava a superar toda e qualquer expetativa, e o melhor ainda estava para vir. (Não fujam: To be continued).








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Assim, quando o nosso barqueiro nos levou a um restaurante, onde acabámos por ser estropiados, nem ligámos muito. Apenas tivemos o cuidado de pedir o menu mais barato, e zarpámos em direção à segunda, e mais emocionante, parte do nosso percurso, que incluiu, não só, uma breve passagem pela Casa das Padaung, as famosas “Mulher Girafa” do Myanmar, mas, também, uma merecida visita aos templos mais icónicos do lago. 


A primeira paragem aconteceu no famoso Nga Hpe Kyaung, também conhecido como o “templo dos gatos”, localizado no lado ocidental do lago. Construído no ano de 1853, este mosteiro em madeira é conhecido, não só, pelas dezenas de felinos que aí habitam, mas, sobretudo, pela incrível coleção de estátuas antigas de Buda, executadas a partir dos estilos Shan, Tibetano, Inwan (Ava) e de Bagan. Até há pouco tempo, os animais estavam treinados para saltar, durante as cerimónias religiosas, pelo interior de anéis de metal, “costume” que, felizmente, já terminou, dedicando-se, agora, à ancestral arte da ronha.
Durante a visita, conhecemos um monge muito simpático que era, aparentemente, o “chefe” do templo, o qual tentou comunicar connosco e, aparentemente, explicar o nome dos gatinhos, mas, como não falava inglês, acabámos por não perceber a mensagem.















Com a clara certeza de não termos tido tempo para aproveitar o suficiente, e um enorme aperto no coração por vermos os templos milenares misturados com verdadeiras barracadas, demos uma volta pelo mercado, comprámos alguma comida e pedimos para voltar. 







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Crónicas do Myanmar: Pa Daung – As Mulheres “Girafa” do Inle Lake
De acordo com dados governamentais, existem 135 etnias no país, de que, sem sombra de dúvida, os Padaung ou Kayan Lahwi, de ondem provêm as famosas “mulheres girafa”, são uma mais conhecidas, pelo que, quando, durante a visita ao Inle Lake, nos levaram a vê-las, não fiquei, propriamente, surpreendida.
Originárias das montanhas do sudoeste do país, usam, desde tenra idade, anéis de bronze no pescoço, que se acreditam estarem associados à beleza feminina. Assim, quantos mais uma mulher tiver, mais bela será. Ao contrário do que se pensa, se os tirarem não morrem, mas a musculatura do pescoço fica enfraquecida. Pelo que percebi, costumam dedicar-se à tecelagem, e é comum vê-las em mercados e lojas da região.




Supostamente, o local onde as vimos, tem por objetivo valorizar a herança cultural desta etnia, contornando a exploração turística gratuita. Se, por um lado, não cobravam bilhete ou pediam dinheiro, por outro, era uma espécie de loja que vendia artesanato, onde o preço dos artigos estava super inflacionado.
Devo confessar que me senti super incomodada, sobretudo quando vi uma criança, pelo que não gastámos um único cêntimo. De acordo com a tradição, os anéis começam a ser usados aos nove anos e, com vinte e cinco, o pescoço adquire a forma final, sendo retirados, apenas, à noite, para dormir.
Descendendo, diretamente, de famílias com ascendência tibetano – birmanesa, com a guerra civil, durante as décadas de 80 e 90 do século XX, muitas Padaung fugiram para a fronteira com a Tailândia, tendo-se, nos campos de refugiados, tornado uma atração pelo seu aspeto exótico.
Apesar de muito comuns nos locais mais turísticos do Myanmar, como Bagan ou o próprio lago, para quem quer emergir nesta cultura, o ideal é visitar o estado Kayah, nomeadamente a capital Loikaw, onde vivem mais de vinte mil pessoas. Basta consultar o guia do viajante para esta região.
Apesar de não termos tido oportunidade, que é como quem diz: tempo, para visitar a cidade natal das Padaung, confesso que fiquei fascinada com estas mulheres, e com uma enorme vontade de descobrir mais sobre a sua cultura. Ainda tentei comunicar, mas infelizmente, não falavam inglês. Sem perceber como, o nosso tempo tinha chegado ao fim, e, num ápice, tivemos que sair, porque o dia já ia a meio e ainda havia muito lago para visitar.
(Não fujam: To be continued).




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